Quantas vezes, no último ano, baixou o preço só porque o prazo apertava?
Não foi um argumento novo, nem uma proposta irrecusável da concorrência: foi quinta-feira à tarde, o mês a fechar, e alguém do outro lado a escrever «preciso disto resolvido até amanhã». A proposta que se aguentava de pé há três semanas perdeu 8% em vinte minutos. Foi a pressão do tempo a fazer o trabalho todo, sem esforço nenhum do comprador.
A pressão do tempo é a tática mais barata que existe numa negociação. Não exige preparação nem contra-argumentos, e nem sequer exige talento. Basta apontar para o calendário e deixar o relógio fazer o resto. E o pior é que funciona quase sempre, porque o comercial foi treinado para responder a objeções, não para negociar contra o tempo. As objeções entram pela porta da frente. O tempo entra pela porta do cavalo.
Olhe para os incentivos: se um comprador consegue o mesmo desconto com uma frase («só tenho até sexta») que outro consegue com duas horas de reunião dura, qual das duas acha que os compradores vão escolher da próxima vez?
O que a pressão do tempo faz à sua margem
Quando o prazo aperta, a cabeça do comercial muda de pergunta. Deixa de perguntar «como é que fecho bem este negócio?» e passa a perguntar «como é que fecho já este negócio?». Parece a mesma pergunta, mas na realidade não é.
Com tempo, o comercial explora trocas: prazo contra volume, preço contra compromisso, âmbito contra data de decisão. Compara alternativas. Deixa o silêncio trabalhar. Sem tempo, aceita a primeira versão razoável que lhe aparece à frente. E a primeira versão razoável, numa negociação, é quase sempre a mais cara para quem cede.
É por isso que a pressão do tempo raramente lhe rouba a margem de uma vez. Rouba-a em danoninhos: um desconto pequeno aqui para «garantir que fica fechado esta semana», uma condição de pagamento ali porque «já não há tempo para discutir isso», um serviço oferecido acolá para não atrasar a assinatura. Cada cedência, vista sozinha, parece inofensiva. Todas somadas, no final do ano fazem uma diferença que ninguém aprovaria de uma vez.
E existe um pormenor cruel: quem cede sob pressão ensina o outro lado a repetir a receita. O comprador que ganhou 5% com um prazo apertado não se esquece. No contrato seguinte, o prazo aperta mais cedo e o desconto pedido é maior.
Prazo real ou prazo fabricado: a pergunta que os separa
Nem toda a urgência é teatro. Existem prazos verdadeiros: um concurso com data de entrega, um orçamento que expira a 31 de dezembro, uma linha de produção parada à espera de peças. E existem prazos fabricados, inventados apenas para o apressar.
A boa notícia é que se distinguem com uma pergunta. Quando lhe disserem «preciso do seu melhor preço até quinta», responda com toda a calma:
«Com certeza. Ajude-me só a perceber uma coisa: o que é que acontece do vosso lado na sexta, se isto não estiver fechado?»
Um prazo real tem uma consequência concreta do outro lado: «o concurso fecha», «a fábrica para», «o orçamento deste ano deixa de estar disponível». Um prazo fabricado responde com nevoeiro: «é a nossa política», «o meu diretor quer isto arrumado», «são procedimentos internos». Quando a consequência não aparece, o prazo não existe. Existe apenas a esperança de que ninguém pergunte.
O final do trimestre é do comprador, não é seu
Agora olhe para o outro lado da mesa, porque a pressão do tempo pesa dos dois lados, e o lado mais perigoso é o seu.
As equipas de compras profissionais conhecem os objetivos de fim de mês dos comerciais melhor do que muitos diretores comerciais. Sabem que no dia 28 há vendedores aflitos por fechar o número. E fazem uma coisa muito simples: deixam a negociação arrastar-se. Semanas sem responder, reuniões adiadas, «ainda estamos a avaliar internamente». Depois, no dia em que sabem que o vendedor precisa do contrato para os objetivos de vendas, aparecem com a exigência final: «fechamos hoje, mas só com mais 5%.»
Será que o comprador precisava mesmo daquela data? Claro que não. A pressa era do comercial, e ele limitou-se a usá-la. Quem tem mais pressa numa negociação paga a conta dela. É das poucas regras que nunca vi falhar.
E atenção: mais do que esconder a pressa, o objetivo é não a ter. Um funil comercial com alternativas reais é o melhor calmante negocial que conheço. Quem tem três negócios vivos não depende de nenhum deles.
Como virar a pressão do tempo a seu favor
Os negociadores que trabalham sob a maior pressão que existe, os que têm vidas em cima da mesa e não contratos, fazem exatamente o contrário do instinto: abrandam. O Program on Negotiation, de Harvard, descreve como os negociadores do FBI tratam o tempo como o seu recurso mais valioso: deixam as emoções arrefecer, evitam prazos artificiais e recusam-se a decidir a quente. A urgência, dizem eles, não obriga à pressa. Se o método aguenta uma negociação de reféns, aguenta perfeitamente a sua proposta comercial.
Na prática, para o seu dia a dia:
- Nunca responda a uma exigência com prazo no próprio dia. Vinte e quatro horas de distância transformam a resposta. O que de manhã parecia inevitável, no dia seguinte parece o que é: uma tática.
- Marque o calendário antes que o outro lado o faça. Quem propõe as datas controla o ritmo. Funciona como a primeira proposta: tal como escrevi no artigo sobre a âncora na negociação, quem apresenta o primeiro número define a bitola da conversa. Com o tempo é igual. Quem apresenta o primeiro calendário define o ritmo da negociação.
- Use o silêncio sem culpa. Quem se sente obrigado a preencher cada silêncio acaba a preenchê-lo com concessões. Aguente o vazio: muitos dos prazos do outro lado caem sozinhos, sem precisarem de resposta nenhuma.
- Troque tempo por valor. Se o cliente quer mesmo velocidade, a velocidade tem preço: «consigo ter isto assinado e a arrancar na segunda-feira, se fecharmos com o âmbito completo». A urgência dele passa a criar peso no seu prato da balança, em vez de lhe custar dinheiro.
Urgência legítima: como criar pressa sem truques
E quando é o comercial que precisa de ritmo, porque o negócio se arrasta há meses? Também se cria urgência sem fabricar teatro. A diferença entre pressão legítima e manipulação reduz-se a um único teste: a consequência é verdadeira?
- Uma agenda de implementação real. «Para o sistema estar a funcionar antes do vosso pico de novembro, precisamos de fechar até 15 de setembro.» Não há truque nenhum aqui: é aritmética, e o prazo nasce do calendário do cliente.
- Capacidade limitada verdadeira. Se a sua equipa só consegue iniciar dois projetos por mês, dizê-lo é informação útil. Chantagem seria inventá-lo.
- O custo de adiar, calculado com os números do cliente. Cada mês sem resolver o problema custa-lhe trabalho a dobrar, paragens, oportunidades perdidas. Faça essa conta com ele e coloque-o a olhar para o relógio dele, não para o seu.
O que nunca deve fazer: prazos falsos. «Esta condição só é válida até sexta», e na segunda a condição continua viva. E ainda assim há comerciais que queimam a credibilidade de todos os prazos futuros só para fechar dois dias mais cedo. Sai caro. O cliente testa uma vez. Se o prazo era mentira, nunca mais nenhum prazo seu é verdade.
O «depois falamos» também é pressão do tempo
Falta a versão mais portuguesa de todas: a urgência ao contrário. O adiamento.
«Depois das férias falamos» é a frase que enterra mais negócios em julho do que qualquer concorrente. O adiamento é pressão do tempo em câmara lenta: ninguém lhe diz que não, apenas deixam o negócio arrefecer até definhar. E um negócio parado três meses raramente acorda no mesmo sítio onde adormeceu. Acorda com o orçamento cortado, com o interlocutor mudado de funções, ou com um concorrente sentado na cadeira que era sua.
A resposta é marcar-lhe já uma data, em vez de o aceitar de braços caídos ou de o combater à força. «Entendo, setembro é melhor. Fica já combinado para a primeira semana de setembro? Eu levo o plano revisto.» Com data marcada, o negócio fica apenas a dormir até setembro. Deixado em aberto, fica entregue à sorte.
Um desafio para as próximas duas semanas
Uma proposta concreta, para passar isto do papel para o terreno. Durante as próximas duas semanas:
- Anote todos os prazos que lhe apresentarem. Todos: os dos clientes, os das compras, os do seu próprio chefe.
- A cada um, faça a pergunta: «o que é que acontece, em concreto, se esta data passar?» E aponte a resposta ao lado do prazo.
- Não conceda nada no dia em que a concessão for pedida com prazo. Deixe a resposta para o dia seguinte, nem que seja só para dormir sobre o assunto.
No fim das duas semanas, conte quantos desses prazos tinham uma consequência real do outro lado. O resultado vai surpreendê-lo. Lembre-se de que cada prazo decorativo que aceita hoje é margem que entrega amanhã. E o comprador toma nota.
E agora?
O relógio vai continuar a andar. A sua margem é que não tem de pagar a conta.
