Em agosto não se vende nada. Todos na área comercial repetem esta frase, ano após ano, como quem repete uma lei da física. E sabe que mais? Têm razão. Agosto é mesmo um deserto. O erro não está no diagnóstico, está na conclusão que a maioria tira dele: «então não vale a pena fazer nada até setembro».
É precisamente ao contrário. O seu pipeline antes das férias é a única coisa que decide se setembro começa com reuniões marcadas ou com a agenda vazia. E a agenda vazia de setembro faz-se em julho, de cada vez que se desliga mais cedo porque «isto agora está parado».
Pense comigo: se o seu ciclo médio de venda anda pelos sessenta ou noventa dias, os negócios que vai fechar em outubro e novembro têm de nascer agora, não em setembro. Quem só retoma a prospeção em setembro está, sem saber, a decidir que o último trimestre do ano vai ser passado a tentar recuperar o tempo perdido.
A matemática de setembro faz-se em julho
Vamos aos números, porque isto não é uma questão de opinião.
Se voltar de férias a 1 de setembro e só então começar a contactar, as primeiras reuniões acontecem em meados do mês. As propostas saem no final de setembro. As decisões, com sorte, em novembro. Resultado: outubro magro, novembro feito em cima do joelho, e dezembro a implorar fechos antes do Natal. Já viu este filme, não viu?
Agora inverta. Se as reuniões da primeira quinzena de setembro ficarem marcadas ainda em julho, volta de férias com a agenda cheia e o motor quente. As propostas saem em setembro, as decisões caem em outubro, e o trimestre respira.
O que separa os dois cenários não é talento, nem mercado, nem sorte. São duas ou três semanas de trabalho focado, feitas na altura em que quase toda a concorrência já desistiu do mês.
Limpar o pipeline antes das férias: fora com os mortos-vivos
Antes de encher o funil, é preciso olhar para o que está dentro dele. E aqui é preciso coragem, porque julho é o mês ideal para uma limpeza à séria.
Qualquer funil tem mortos-vivos: oportunidades que já não respondem desde maio, mas que continuam ali porque «nunca se sabe». Saber, sabe-se. E o pior é que esses negócios parados dão um conforto enganador: o funil parece cheio, a previsão parece razoável, e a prospeção fica sempre para amanhã. Já escrevi sobre esta armadilha na técnica da avestruz: um funil que só parece cheio é um excelente sítio para esconder a cabeça.
Para cada oportunidade parada, uma pergunta honesta: «há alguma razão concreta para acreditar que este negócio ainda avança?» Se a resposta é não, tem duas opções. Uma última tentativa franca, ou o negócio sai do funil, com data de recontacto marcada na agenda. O que não pode é continuar a alimentar ilusões.
E a última tentativa, em julho, traz uma vantagem curiosa. Um email ou uma chamada a dizer «antes de fecharmos o semestre, queria perceber se isto ainda faz sentido para si» consegue respostas que três meses de «só queria fazer um ponto de situação» nunca conseguiram. As pessoas também querem arrumar a casa antes das férias. Aproveite essa vontade.
Encher a agenda de setembro antes de sair: o passo que quase ninguém dá
Esta é a parte mais simples e, por incrível que pareça, a mais ignorada: antes de sair de férias, marque as reuniões da rentrée.
O guião é curto. Para clientes e oportunidades vivas: «Sr. Cliente, sei que vamos os dois desligar em agosto. Para não andarmos em setembro a jogar ao gato e ao rato com as agendas, marcamos já quinze minutos para o dia 8?» Direto, sem pressão, e com um argumento que qualquer pessoa entende: a agenda de setembro enche depressa.
Repare no que este passo faz por si. Primeiro, transforma o «depois falamos» num compromisso com data, que é coisa muito diferente. Segundo, garante que arranca logo no primeiro dia, sem a primeira semana perdida. Terceiro, testa o interesse verdadeiro de cada contacto: quem não aceita quinze minutos daqui a seis semanas dificilmente lhe vai comprar alguma coisa.
Uma nota prática: convite de calendário enviado na hora, ainda durante a chamada. O compromisso verbal evapora-se em agosto, o convite aceite fica na agenda.
Duas semanas a fundo: a prospeção em julho vale por três
E os contactos novos? É aqui que julho compensa quem não desiste dele.
A investigação da RAIN Group, citada nas estatísticas de vendas compiladas pela HubSpot, aponta para uma média de oito toques para conseguir uma primeira reunião com um contacto novo. Oito. Quem começa a semear contactos frios em setembro só colhe reuniões em outubro. Quem semeia agora tem a primeira quinzena de setembro cheia.
Há ainda um bónus escondido: em julho, a concorrência abranda. As caixas de correio dos decisores ficam mais vazias, as chamadas atendem-se com mais calma, e uma abordagem bem feita destaca-se muito mais do que em março. Menos ruído, mais atenção. Quem não chora, não mama, e em julho chora-se praticamente sozinho.
No verão passado, uma das equipas com que trabalhei decidiu testar este plano de duas semanas: limpeza do funil, reuniões de setembro marcadas, vinte contactos novos por comercial. Confesso que na altura ouvi mais queixas do que entusiasmo. «Isto em julho não vai dar em nada», dizia-me o mais experiente da casa. Em setembro, o mesmo comercial tinha onze reuniões marcadas nas duas primeiras semanas e fechou o melhor trimestre dos últimos três anos. No ano anterior, sem este plano, tinha voltado de férias para uma agenda vazia e um funil parado há meses. A diferença não foi o mercado, foi o calendário.
O que deixar a trabalhar por si em agosto
Ir de férias não é desligar o negócio: é deixá-lo em piloto automático bem programado.
Três coisas para deixar montadas antes de sair:
- Seguimentos agendados. Cada proposta em aberto fica com o próximo contacto já escrito e agendado para o fim de agosto ou início de setembro. Se usa sequências no CRM ou no email, deixe-as preparadas. A cadência de seguimento não tira férias, mesmo quando o comercial tira.
- A chama acesa. Um conteúdo útil programado para meio de agosto (um artigo, um caso, uma checklist) mantém-no presente sem pedir nada em troca. Quem aparece sem vender em agosto é o primeiro em quem se pensa em setembro.
- Uma espreitadela por semana. Um momento curto, mesmo de férias, para responder só ao que for urgente: chega para não deixar murchar em dez dias o que demorou meses a construir.
É chato. Mas é necessário. E são duas horas de preparação.
O primeiro dia de setembro decide-se hoje
Um pipeline bem tratado antes das férias ainda precisa de uma última peça: escrever, ainda em julho, o plano do dia 1 de setembro. Parece exagero, mas não é: é o que separa um regresso que arranca de um que patina.
O plano cabe numa página: as reuniões já marcadas, os cinco seguimentos prioritários, os dez contactos novos da primeira semana, e o objetivo do trimestre partido em números semanais. Quem volta de férias sem plano gasta a primeira semana «a colocar a máquina em marcha». Quem volta com o plano escrito começa a vender à hora do primeiro café.
Não fique à espera de D. Sebastião: o trimestre resolve-se com o que fizer nas próximas duas semanas.
O desafio desta semana
Vá lá! Experimente. Cinco gestos antes de sexta-feira:
- Limpe o funil. Cada oportunidade parada há mais tempo do que o seu ciclo médio de venda leva uma última tentativa honesta ou sai do funil, com data de recontacto na agenda.
- Encha a agenda de setembro. Cinco reuniões no arranque do mês, marcadas já, com convite de calendário aceite.
- Faça a conta. De quantas reuniões precisa em setembro e quantos contactos novos isto exige em julho. E cumpra o número, dia a dia.
- Programe agosto. Seguimentos agendados, um conteúdo a meio do mês, uma espreitadela ao que é urgente uma vez por semana.
- Escreva o plano do dia 1. Uma página, na gaveta, à sua espera quando voltar.
Será que a sua concorrência vai fazer isto? Provavelmente não. E é exatamente por isso que vale a pena.
E agora?
Vamos a isso! Setembro começa esta semana.
