O gestor comercial que se queixa de que a equipa não faz prospeção suficiente costuma ter razão. O problema é que, na maioria dos casos, nunca ensinou ninguém a fazê-la. Cobra números todas as segundas, pergunta «então, quantas chamadas fizeste?», franze a testa quando o funil está vazio, e chama a isto liderança. Não é. É contabilidade. O que falta na maioria das equipas não é pressão, é coaching de prospeção: alguém que se sente ao lado do comercial, perceba onde ele encrava e treine a competência em vez de exigir só o resultado.
Gerir atividade não é treinar capacidade
Gerir atividade é olhar para os números e cobrar. «Fizeste 20 chamadas? Só 12? Faltam 8.» É útil, é preciso, mas é o trabalho de um polícia de trânsito: multa quem passa o sinal, não ensina ninguém a conduzir.
Treinar capacidade é outra coisa. É perceber porque é que o comercial só fez 12 chamadas. Se calhar não sabe a quem ligar. Se calhar tem uma lista de contactos que é um cemitério de nomes velhos. Se calhar liga, leva com uma objeção logo à entrada, encolhe-se, e passa a manhã afogado em tarefas administrativas para não voltar a pegar no telefone.
A cobrança, sozinha, nunca chega aqui. Fica-se pelo número. E o número, sozinho, é um sintoma, nunca um diagnóstico.
Um líder comercial que só sabe cobrar atividade está a exigir o resultado sem nunca ensinar o método. Às vezes corre bem: há sempre um ou outro comercial que se treina sozinho. Mas a maioria fica à espera de D. Sebastião, de que a prospeção lhe caia no colo. Não cai.
A prospeção é uma competência, não um traço de personalidade. E competências treinam-se. Ninguém nasce a saber construir uma lista, escrever uma primeira mensagem que não vá para o lixo, ou aguentar um «não tenho tempo» sem desligar em pânico. Aprende-se. E aprende-se com quem já lá esteve, ao lado, com paciência. É isto o coaching na sua raiz: um acompanhamento que faz crescer a pessoa, não uma fiscalização que se limita a apertá-la.
Onde é que cada comercial encrava
«A equipa não faz prospeção» é um diagnóstico preguiçoso. Falha onde? Porque a prospeção não é um bloco único, é uma cadeia de cinco elos, e cada comercial parte a corrente num sítio diferente.
Faça este diagnóstico, comercial a comercial:
- Construção da lista. Ele sabe a quem ligar? Tem um perfil de cliente claro na cabeça, ou anda a ligar sem critério? Muitos não fazem prospeção porque, na prática, não têm a quem ligar. Gastam o tempo à procura de nomes em vez de pegar no telefone.
- Primeira mensagem. A abordagem inicial, seja chamada, seja escrita, agarra ou afasta? Há comerciais que abrem com um monólogo sobre a empresa deles e admiram-se de que o cliente desligue. A primeira frase decide o resto.
- Objeção logo à entrada. «Não tenho tempo», «já temos fornecedor», «envie-me um email». O comercial recua no primeiro embate ou tem resposta preparada? É o elo onde mais comerciais ficam pelo caminho.
- Cadência de seguimento. Ligou uma vez, não atenderam, riscou o nome. A maioria dos contactos não responde à primeira abordagem, responde ao fim de várias. Quem risca o nome à primeira tentativa falhada não tem problema de prospeção, tem problema de persistência.
- Mindset e medo da chamada. O elo invisível. O comercial que arruma a secretária, que responde a emails a mais, que faz tudo menos pegar no telefone. É medo, não preguiça. E o medo não se resolve com um sermão sobre números.
Se o comercial encrava na construção da lista, exigir-lhe «mais chamadas» é cruel e inútil: ele não tem a quem ligar. Se encrava no medo, cobrar-lhe atividade só aperta mais o nó. O diagnóstico dita o treino. Sem diagnóstico, o líder dá o mesmo treino a problemas diferentes.
O ritmo do coaching de prospeção
O diagnóstico não se faz uma vez por ano na avaliação de desempenho. Faz-se em cima do acontecimento, com um ritmo regular. E esse ritmo assenta em três gestos simples, que qualquer líder pode fazer sem cursos caros.
Acompanhar chamadas ao vivo. Sente-se ao lado. Não para corrigir a meio, isso humilha, mas para ouvir. Vai perceber em três chamadas o que não perceberia em três meses a olhar para indicadores.
Rever gravações. Se a equipa grava as chamadas, oiça uma por semana com cada comercial. «Repara aqui, no segundo 40. O cliente disse “estamos servidos” e tu recuaste. O que podias ter perguntado?» Vale mais do que dez relatórios. O comercial ouve-se a si próprio e percebe logo.
Role-play. Sim, aquilo que quase toda a gente acha ridículo até experimentar. Faça de cliente difícil. Deixe o comercial treinar a objeção num ambiente onde errar não custa um negócio. É como o piloto no simulador: parte-se o avião mil vezes ali, para não o partir a sério.
Uma equipa de vendas que acompanho andava com o funil sempre vazio. O diretor comercial estava convencido de que tinha uma equipa preguiçosa. Sentámo-nos os dois a ouvir gravações. Ao fim de meia hora, o padrão saltou à vista: os comerciais faziam boa prospeção, agarravam a conversa, mas assim que o comprador dizia «neste momento não estamos a mudar de fornecedor», desligavam mentalmente. Um a um. Não era preguiça. Era um único elo partido, a objeção à entrada, e nunca ninguém tinha treinado a resposta com eles. Duas sessões de role-play depois, o funil começou a encher. O problema nunca tinha sido a quantidade de esforço. Era a competência num ponto exato, e essa treina-se.
Os indicadores de prospeção que interessam
Falemos de números. O erro clássico é avaliar a prospeção pelo que está no fim da linha: os negócios fechados que ela gerou. Chegam meses tarde e não dizem onde intervir.
O líder que faz coaching a sério olha para os leading indicators da prospeção, os sinais que aparecem antes do resultado e que ainda se conseguem corrigir:
- Número de novos contactos qualificados adicionados à lista por semana.
- Número de primeiras abordagens feitas (não «chamadas», abordagens que chegaram a alguém).
- Percentagem de primeiras abordagens que recebem resposta.
- Número de reuniões de descoberta marcadas.
- Cadência média de seguimento por contacto (quantos toques até desistir).
Os negócios fechados dizem-lhe que a prospeção de há uns meses falhou, quando já não há nada a fazer. A percentagem de respostas às primeiras abordagens diz-lhe, à terça-feira, que a mensagem do João não está a resultar, e ainda dá tempo de a reescrever com ele antes de a semana estar perdida. Um é uma autópsia. O outro é medicina preventiva.
Números de fecho servem para pagar comissões, não para treinar comerciais. Para treinar, precisa dos indicadores de esforço e de eficácia intermédia. Escrevi mais sobre esta ligação entre o objetivo grande e a métrica do dia a dia neste artigo sobre atividade comercial, que complementa bem o que aqui fica.
A estrutura de um 1:1 focado em prospeção
A reunião individual é o palco onde o coaching de prospeção acontece de verdade, se não for desperdiçada. E é desperdiçada quase sempre. Torna-se um interrogatório: «quanto vendeste, quanto falta, porque é que não vendeste mais». O comercial sai de cabeça baixa e desmotivado, e o líder acha que fez o seu trabalho.
Um 1:1 que treina, em vez de cobrar, tem mais ou menos esta estrutura:
- Começar pelos números certos (pouco tempo). Não a faturação. Os leading indicators da semana. Onde estão fortes, onde caíram.
- Escolher UM elo para trabalhar (o coração da reunião). Não os cinco. Um. O elo mais fraco. Ouvir uma gravação, fazer um role-play, reescrever uma mensagem juntos.
- O comercial fala mais do que o líder. Se o líder fala a maior parte do tempo, está a debitar, não a treinar. As melhores perguntas são «o que achas que correu mal ali?» e «o que farias diferente?».
- Sair com um compromisso concreto. «Faz mais prospeção» não é um compromisso. «Esta semana testas esta abertura em dez chamadas e na sexta comparamos» é. O comercial sai a saber exatamente o que vai fazer.
Uma reunião individual sem um compromisso concreto à saída é só uma conversa. O formato completo destas reuniões está neste artigo sobre as reuniões individuais com a equipa comercial.
Construir cultura, não apagar fogos
Há uma última peça, e é a mais difícil. O coaching de prospeção não pode ser uma reação ao pânico de fim de trimestre. Tem de ser regular: semana após semana, mês após mês, faça chuva ou faça sol. É a única forma de a prospeção deixar de ser aquela tarefa chata que se faz quando o funil grita, e passar a ser um hábito da casa.
O líder que só aparece quando os números estão maus ensina a equipa a esconder os números maus. O líder que aparece sempre, com o mesmo ritmo calmo, ensina a equipa a pedir ajuda antes de o barco meter água. É a diferença entre uma cultura de medo e uma cultura de prospeção.
Faça isto durante um trimestre a sério e vai ver o funil mudar de figura. Não porque a equipa passou a esforçar-se mais, mas porque passou a saber fazer. Deixe de cobrar atividade. Passe a treinar capacidade.
Segunda de manhã, comece por pouco: escolha um comercial, oiça uma chamada dele, e trabalhem juntos um único elo. Se quiser uma estrutura para não perder o fio às reuniões, o tracker de 1:1 da Ideias e Desafios faz esse trabalho por si.
E agora?
O funil não se enche a cobrar. Enche-se a treinar.
