A maior parte das suas negociações já não acontece cara a cara. Acontecem num email às seis da tarde, numa mensagem de WhatsApp entre duas reuniões, num comentário trocado no LinkedIn. A negociação por escrito passou a ser o terreno onde se ganha ou se perde margem, e quase ninguém a treina. Aprendemos a negociar frente a frente, com aperto de mão e olhos nos olhos. Depois pega-se no teclado e faz-se tudo ao contrário.
No meu entender, é aqui que o comercial de hoje mais falha sem dar por isso. Confia na sua conversa e na sua presença. E depois escreve, às pressas, um email que oferece um desconto que ninguém lhe pediu.
O que perde quando negoceia por escrito
Numa reunião, tem armas de que nem se dá conta. O tom de voz que suaviza um «não». A pausa antes de responder. O sorriso que desarma. A sobrancelha que se levanta quando o outro atira um número absurdo. Tire tudo isso e fica só texto.
E o texto é traiçoeiro por três razões.
Primeira: tudo fica registado. O que diz numa sala vive na memória (falível) das pessoas. O que escreve fica para sempre. Pode ser reencaminhado para o chefe, colado noutra proposta, fotografado e mostrado ao seu concorrente. Uma concessão dita esquece-se. Uma concessão escrita é permanente e passa a ser o novo ponto de partida da conversa. Deu 8% num email? Já não os recupera. A negociação seguinte já não parte do seu preço: parte dos 8%.
Segunda: o tom lê-se sempre por baixo das palavras. Uma frase curta e seca, que na sala sairia com um sorriso, no ecrã do outro soa a arrogância ou a mau humor. Não temos entoação escrita. Quem lê preenche o tom que falta com o pé com que se levantou nesse dia. E isso gera mal-entendidos que estragam negócios bem encaminhados.
Terceira: o silêncio muda de significado. Numa sala, três segundos de silêncio são uma ferramenta. Por escrito, três horas sem resposta são uma tortura, e é quase sempre o comercial (não o comprador) que quebra o silêncio e escreve outra vez, a descer o preço sem que ninguém lho tenha pedido. Está a mostrar pressa a mais, quando ninguém do outro lado o estava sequer a pressionar.
Guarde esta ideia, que sustenta tudo o resto: por escrito, cada palavra pesa mais e dura mais. Escreva a pensar nisso.
Ancorar por escrito: quem dá o primeiro número define a conversa
Há um mito antigo: «quem dá o primeiro número fica a perder». A prática mostra o contrário. Quem ancora primeiro, com fundamento, define o ponto de partida da conversa toda. O efeito de ancoragem é, aliás, um dos mecanismos mais estudados da negociação: o primeiro número lançado condiciona todos os que vêm a seguir. E por escrito a âncora é ainda mais forte, porque fica lá, fixa, a servir de régua para tudo o que vem depois.
Quando envia a sua proposta, ou uma revisão dela, não atire um número solto a ver se cola. Ancore com contexto:
- Apresente o valor antes do preço. O número tem de aterrar em cima de uma razão, nunca sozinho numa linha.
- Ancore no valor de venda que o cliente vai ter, não no seu custo. «Isto resolve-lhe X e devolve-lhe Y por mês» pesa mais no prato da balança do que «são tantos euros».
- Se tem de dar uma gama de preços, coloque o valor mais alto primeiro. O que vem depois lê-se como alívio, não como teto.
Ancorar bem é ser o primeiro a fixar a referência da conversa. Quem começa o email a oferecer um desconto está a fixar essa referência contra si próprio.
O esqueleto de um email de negociação
A proposta formal segue como documento. O email onde a defende, onde se trocam argumentos, valores e condições, é outra peça. E é essa que quase toda a gente escreve mal. Fixe este molde. Cinco blocos, por esta ordem:
- Contexto (uma linha). Recorde onde ficámos. «Na sequência da nossa conversa de terça e do objetivo de reduzir as suas paragens de linha…»
- Valor (duas a três linhas). O que isto resolve, em concreto, para o cliente. É aqui que se ganha ou perde o negócio, não no número.
- A sua posição (clara, sem pedir desculpa). O valor, o âmbito, o prazo, ou a condição que defende. Sem «eu sei que pode parecer alto», sem «peço desculpa pelo valor». Quem pede desculpa pelo preço está a dizer ao outro que o preço é negociável para baixo.
- A condição da troca. Se houver flexibilidade, ela vem sempre atrelada a uma contrapartida (já lá vamos).
- O próximo passo, marcado por si. Nunca termine com «fico a aguardar». Termine com «proponho falarmos quinta às 15h para fecharmos os detalhes». Quem marca o próximo passo controla o ritmo.
Este molde coloca o valor antes do preço. Inverte o instinto de abrir com o número e rezar para que o cliente não fuja.
«Está caro»: como responder por escrito sem ceder margem
Um dia chega o email: «Está muito caro.»
Muita gente responde em trinta segundos, no telemóvel, a caminho de uma reunião: «Consigo fazer-lhe 10%.» O comprador ainda só tinha apertado, e já recebeu um desconto que nem sequer tinha pedido.
O escrito dá-lhe aqui uma vantagem enorme que a sala não dá: tempo. Ninguém está à sua frente a olhar para si. Use-o. Não responda a quente. E quando responder, faça uma pergunta antes de dar um número:
«Obrigado pela resposta. Quando diz caro, é caro em relação a quê? Ao orçamento que tinham previsto, a uma proposta concorrente, ou ao retorno que esperam do investimento? Consoante a resposta, conseguimos ver o que faz sentido ajustar.»
Repare no que isto faz. Não cede nada. Devolve a bola. Obriga o outro a fundamentar o «caro», e o «caro» quase nunca aguenta ser fundamentado. Muitas vezes o cliente responde «não, é só que preciso de justificar isto lá dentro», e o problema afinal não era preço, era munição para ele defender a compra no comité de decisão. Se já tivesse dado os 10%, tinha resolvido um problema que não existia e ainda por cima à sua custa.
Este princípio de não ceder margem à primeira pressão é o mesmo que desenvolvi no artigo sobre negociar com o departamento de compras. Por escrito, a tentação é ainda maior, porque escrever um número parece indolor. Não é. Fica lá, escrito, para sempre.
Trocar, não ceder: a regra de ouro da negociação por escrito
Se há uma frase para levar deste artigo, é esta: por escrito, nunca dê nada de graça. Troque.
Ceder é dar sem receber. Trocar é dar para receber. E por escrito a diferença fica documentada, o que é uma bênção, porque a contrapartida também fica registada.
A construção é sempre condicional. Nunca «posso dar-lhe 5%». Sempre «se fecharmos esta semana e passarmos a 24 meses, consigo chegar aos 5%». Vê a diferença?
Trabalhei uns meses com uma equipa comercial que negociava quase tudo por email. A margem escorria-lhes por entre os dedos, e não percebiam porquê. Fui ler os emails. Estava tudo lá. Cada vez que o cliente escrevia «e não dá para fazer melhor no preço?», o comercial respondia com um número mais baixo. Sempre. Nunca uma pergunta, nunca uma troca, nunca uma contrapartida. Só descontos, um atrás do outro, todos por escrito, todos a tornarem-se a régua da negociação seguinte.
Mudámos uma única coisa: a partir daí, nenhuma cedência saía sem uma troca na mesma frase. «Consigo esse valor se garantirem este volume até ao fim do ano.» Em três meses, a margem média por contrato subiu de tal forma que os deixou a olhar uns para os outros sem perceber como não tinham feito aquilo antes. Não foi magia. Foi parar de oferecer danoninhos e começar a trocar.
Cada cedência sua tem de trazer algo em troca: prazo, volume, uma referência, uma decisão mais rápida. Se não traz nada, não está a negociar, está só a baixar o preço.
Quando parar de escrever e pegar no telefone
Grande parte de fechar bem por escrito está aqui: saber quando o escrito já não serve.
Há momentos em que o escrito é um campo minado, e o melhor é sair de lá:
- Quando o tom começa a azedar e as frases ficam mais curtas dos dois lados.
- Quando há um impasse que não se desbloqueia com mais uma linha de texto.
- Quando o assunto é sensível (subir um preço, dar uma má notícia, recuar numa condição). Estas coisas dizem-se ao telefone ou na sala, nunca por escrito.
- Quando dá por si a melhorar a oferta só porque o cliente não respondeu. Isso é negociar sozinho.
A jogada de mestre é usar o escrito para o que ele é bom (registar, propor, confirmar) e o telefone ou a reunião para o que o escrito estraga (desbloquear, sentir o outro, fechar). Depois da chamada, volte ao escrito para uma coisa só: confirmar por email o que combinaram de viva voz. Assim tem o melhor dos dois mundos, o calor da voz e a segurança do registo.
O que nunca deve escrever numa negociação por escrito
Há frases que, numa negociação por escrito, chegam para perder um negócio. Corte-as do seu vocabulário:
- «Qual é o seu orçamento?» logo de início. Está a entregar a âncora ao outro lado de bandeja.
- «O nosso preço normal é X, mas para si…». Acabou de confessar que o preço é inventado. Se dá desconto antes de o pedirem, todo o resto passa a ser suspeito.
- «Sem compromisso» ou «sem qualquer pressão». Quem escreve isto está a fazer exatamente o contrário, e o outro sente-o.
- Um número solto numa linha, sem valor por cima que o justifique.
- «Peço desculpa pelo valor.» Nunca peça desculpa pelo seu preço. Justifique-o ou cale-se.
- Ultimatos que não vai cumprir. «Esta condição é só até sexta» e na segunda ainda lá está a condição. Perdeu a credibilidade de todos os prazos futuros.
E o oposto do que nunca escrever: seja curto, seja concreto, coloque sempre o valor antes do preço, e feche cada email com o próximo passo marcado por si.
Gestão de prazos e do «vou pensar»
O «vou pensar» por escrito é um buraco negro. O cliente escreve «vou analisar e depois digo alguma coisa», e esse «depois» dura três semanas enquanto o negócio arrefece.
A técnica é não deixar a bola do lado dele sem data. Em vez de «fico a aguardar a sua decisão», escreva: «Combinado, analise com calma. Proponho falarmos na quinta de manhã para tirar as dúvidas que surgirem. Marco às 10h?» Deu-lhe espaço e, ao mesmo tempo, meteu uma data no calendário. Manteve a chama acesa sem parecer que anda atrás dele.
Este trabalho de não deixar o negócio arrefecer entre trocas é uma cadência, e a cadência trata-se com método, como escrevi no artigo sobre o seguimento comercial que fecha. Um negócio que morre por escrito raramente morre de um «não». Morre de silêncio, de emails sem próximo passo, de prazos que ninguém marcou.
Vamos a isso
A negociação por escrito não é uma versão mais fraca da negociação cara a cara. É outro jogo, com outras regras. Ganha-se com frieza, com paciência (o tempo está do seu lado, não contra), e com a disciplina de nunca dar sem trocar. Perde-se por pressa, por medo do silêncio, e por ceder a margem que ninguém pediu só para preencher o vazio.
Da próxima vez que abrir um email de negociação, antes de escrever uma palavra, faça três perguntas a si próprio. Estou a colocar o valor antes do preço? Esta cedência está a comprar alguma coisa? O próximo passo fica marcado por mim? Se responder sim às três, já vai à frente da maioria.
E se quer olhar a sério para os negócios que tem em cima da mesa, veja quais estão a escorregar por escrito com a nossa ferramenta de revisão de negócios. Vale bem os cinco minutos.
E agora?
Vá lá! Experimente no próximo email. Vamos a isso!
