Negociar com as Compras: Como Não Ceder Margem ao Departamento de Procurement

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Negociar com as compras: reunião com o departamento de procurement

Anos atrás, sentei-me com um comercial experiente de um cliente meu, no rescaldo de uma reunião em que tinha acabado de perder o negócio. Tinha entrado no departamento de compras de uma grande empresa cheio de confiança, com a apresentação afinada, o produto na ponta da língua. Saiu de lá com menos 14% de margem e a sensação estranha de que tinha sido simpático demais. «Eles nem foram agressivos», dizia-me. «Foi tudo muito civilizado.» Pois foi. E é precisamente por isso que é perigoso: o comprador profissional que o fez sangrar não levantou a voz uma única vez.

É chato, mas é preciso dizê-lo: quem se senta a negociar com as compras sem perceber como o outro lado é treinado, avaliado e pago entrega a sua margem sem dar por isso. O comprador não é o seu inimigo — é um profissional que faz o trabalho dele, e pelos vistos muito bem. O problema é quando o comercial chega para vender produto e o outro lado chega para comprar desconto. Vamos então perceber como funciona o lado de lá da mesa — e como se senta com o procurement de igual para igual.

Quem é o comprador profissional e como é avaliado

Primeiro, percebamos o jogo do outro lado. O comprador de uma empresa séria — o procurement — não é avaliado pela qualidade do que compra. É avaliado pela poupança que gera. Em inglês chamam-lhe savings, e há departamentos inteiros cujo bónus anual depende da percentagem de desconto negociada com os fornecedores ao longo do ano.

Pare um segundo para digerir isto. O cliente com quem está a falar tem, como principal indicador de desempenho, conseguir que o fornecedor baixe o preço. Cada euro de desconto que lhe oferece é um euro que entra diretamente no KPI dele. Não é pessoal. É o trabalho. Esperar simpatia recíproca de um comprador profissional é ingenuidade: ele não está ali para o ajudar, está ali para cumprir o objetivo dele. Negociar com as compras exige deixar essa ilusão à porta.

E como é que ele alcança esse número? Em três frentes: obtém desconto direto, melhora condições (prazos de pagamento mais longos, garantias maiores, serviços incluídos sem custo) e padroniza fornecedores para ganhar volume negocial. Quando o comercial entende isto, deixa de levar as táticas a peito. Passa a vê-las pelo que são: ferramentas de trabalho de quem está do outro lado a fazer o que lhe pagam para fazer.

As táticas clássicas de um departamento de compras

Quem está habituado a negociar com as compras todos os dias, domina um manual de táticas que repete há décadas. Não são novas. São eficazes porque o comercial do outro lado nunca as estudou. Vamos pô-las à luz do dia, uma a uma, porque a tática que se reconhece perde metade do seu poder.

  • Ancoragem agressiva. Também conhecida por atirar o barro à parede: o comprador atira um número absurdamente baixo logo no início («o nosso orçamento para isto é metade do que apresentou»). Não é uma proposta a sério. É uma âncora para puxar toda a conversa para baixo. Se negociar a partir desse número, já perdeu.
  • «O seu concorrente é 20% mais barato.» O clássico dos clássicos. Pode ser verdade, pode ser meia verdade, pode ser pura invenção. Na maior parte das vezes é uma comparação de coisas diferentes vendida como se fossem iguais.
  • O ultimato e o prazo. «Preciso da sua melhor proposta até amanhã às 9h, ou avançamos com outro fornecedor.» A pressão de tempo existe para o impedir de pensar com clareza e de consultar quem decide do seu lado.
  • O bom-polícia e o mau-polícia. Um comprador joga de simpático e compreensivo; o chefe dele — que «infelizmente não autoriza» — faz de muro. É teatro a duas vozes, montado para o levar a ceder perante o simpático, grato por ele estar «do seu lado».
  • O silêncio. Apresenta o preço. O comprador fica calado a olhar. O incómodo do silêncio leva a que muitos comerciais baixem o preço sozinhos, sem que ninguém lhes tenha pedido. É a tática mais barata e mais devastadora que existe.
  • O bolo às fatias. Concessões sucessivas, pequeninas, uma de cada vez. «E se incluísse a entrega? E a formação? E mais 30 dias de pagamento?» Cada fatia parece inofensiva. Somadas, levam o bolo inteiro.
  • O pedido de última hora. Acordam o preço. Meia hora depois, perto do fim, o comprador volta atrás: «só uma coisa sobre aquele valor…». Quem cede aqui, ensina o outro lado a renegociar tudo, sempre.

▶ DICA

Segundo a Harvard Negotiation Project (Program on Negotiation), numa venda B2B com margem operacional típica, cada 1% de desconto cedido pode corresponder a vários pontos percentuais de lucro perdido, consoante a estrutura de custos. Traduzindo: o desconto que dá em dois minutos para «fechar» pode apagar o lucro de meses. O desconto sai todo da margem — não sai de mais lado nenhum.

Preparar a negociação: o BATNA, a ZOPA e o limite mínimo

Negociar com as compras começa muito antes de entrar na sala. Quem entra numa sala de compras sem se preparar, entra desarmado. E o comprador percebe isso nos primeiros cinco minutos. A preparação faz-se com três peças, e quero que as conheça pelo nome.

A primeira é o BATNA — o melhor acordo alternativo que tem caso este negócio não avance. É o seu colete à prova de bala. Se tem outros clientes a quem vender o mesmo, se a sua agenda de produção está cheia, o seu BATNA é forte e pode dizer «não» sem suar. Se este negócio é a sua tábua de salvação do trimestre, tem um BATNA fraco — e isso nota-se a quilómetros. Construa o seu BATNA antes de entrar na sala, nunca durante a conversa.

A segunda é a ZOPA — a zona de acordo possível: a faixa de valores em que tanto um lado como o outro conseguem fechar sem sair a perder. Mapear a ZOPA é perceber, antes de falar, onde está o teto dele e onde está o seu chão. Se não há sobreposição, não há acordo — e saber isso poupa-lhe horas de negociação inútil.

A terceira peça é o seu limite mínimo — e não, não é a mesma coisa que a ZOPA. A ZOPA diz-lhe onde pode existir acordo; o limite mínimo é o número abaixo do qual se levanta e sai, mesmo que ainda houvesse conversa para ter. Tem de o decidir antes, a frio, no escritório, com a calculadora à frente. Decidir o limite no calor da sala, com o comprador a olhar para si em silêncio, é a receita para o atropelar.

▶ REGRA DE OURO

Mapeie o valor antes de falar em preço. Quem abre a conversa pelo preço já entregou o terreno onde o comprador joga melhor.

Trocar em vez de ceder: nunca dar um desconto sem contrapartida

Se há uma frase que quero que leve deste artigo, é esta: nunca dê um desconto sem receber alguma coisa em troca. Nunca. Nem que seja pequeno. Nem que pareça insignificante. No momento em que cede um euro a troco de nada, ensina o comprador que há mais para conseguir — e ele vai voltar à carga, porque é o trabalho dele.

Ceder é dar. Trocar é negociar. A diferença entre as duas coisas é toda a margem do negócio. Quando o comprador pede 5% de desconto, a resposta nunca é «sim» nem «não». A resposta começa sempre por «se». Veja a diferença:

  • «Consigo esse valor se aumentar o volume da encomenda em 20%.»
  • «Consigo esse valor se passarmos o pagamento de 90 para 30 dias.»
  • «Consigo esse valor se fecharmos um contrato de dois anos em vez de seis meses.»
  • «Consigo esse valor se aceitar ser referência nossa para outros clientes do setor.»

Repare no que acontece. O desconto deixa de ser uma perda seca e passa a ser uma troca que pode até melhorar o negócio para si: mais volume, dinheiro mais cedo na conta, um cliente preso por dois anos, uma referência que lhe abre portas. Quem troca em vez de ceder protege a margem sem perder o negócio. No fundo, negociar com as compras é isto: cada cedência tem um preço, e quem o cobra defende a margem. E, muitas vezes, descobre que o comprador afinal não queria assim tanto o desconto, quando lhe pedem algo concreto em troca.

Defender a margem com valor, não com preço

Negociar com as compras é, em boa medida, uma luta pelo terreno da conversa. O comprador profissional adora que a conversa seja só sobre preço. Por uma razão simples: numa comparação de preço a preço, todos os fornecedores parecem iguais e ele ganha sempre. O seu trabalho é tirar a negociação desse terreno e levá-la para outro, onde joga melhor — o terreno do valor.

Repare numa coisa. O preço é o que o cliente paga hoje. O custo é o que o cliente paga ao longo de toda a vida da relação. São coisas muito diferentes, e a sigla que devia trazer sempre na pasta é TCO — custo total de propriedade. Um produto 10% mais caro, mas que avaria menos, dura o dobro do tempo e vem com um apoio técnico que responde em horas e não em semanas, é, no fim do ano, muito mais barato. Mas isso não aparece na coluna do preço. Cabe-lhe a si pô-lo na mesa.

Leve para a reunião números concretos de fiabilidade, de risco evitado, de tempo poupado, de paragens de produção que o seu produto previne. Quando o comprador diz «o seu concorrente é 20% mais barato», a resposta não é baixar o preço. É: «mais barato em quê, exatamente? No preço de compra ou no custo total ao longo de três anos? Vamos fazer essa conta juntos.» Quem leva o cliente a fazer a conta do custo total sai da comparação preço a preço — e é aí que a margem fica protegida.

Quando o comprador diz «só falo de preço»

Há um momento em que o comprador, treinado para isso, corta o assunto: «poupe-me o discurso do valor, eu só falo de preço». É uma tática, e das melhores. Empurra-o de volta para o terreno onde ele ganha. A pior coisa que pode fazer é obedecer e começar a falar de preço.

Negociar com as compras passa muito por aqui: não obedecer ao terreno que o outro lado escolhe. A saída é reenquadrar com calma. Algo como: «compreendo perfeitamente que o preço seja decisivo para si. E é precisamente por isso que faz sentido garantirmos que estamos a comparar a mesma coisa — senão arrisca-se a comprar o mais barato e a pagar o mais caro daqui a um ano.» Não está a recusar falar de preço. Está a recusar falar de preço.

E há uma jogada estrutural que muda tudo: trazer o utilizador ou o decisor técnico à mesa. O comprador é pago para baixar o preço; quem vai usar o seu produto é pago para que ele funcione. São interesses diferentes. Quando consegue uma conversa com o engenheiro, o responsável de produção ou o utilizador final, o valor volta para a conversa pela porta da frente — porque essas pessoas vivem na pele o custo de comprar mal. Não deixe que o departamento de compras seja a sua única janela para dentro da empresa do seu cliente.

Os erros que custam margem todos os dias

Ao longo de anos a ver comerciais a negociar com as compras, vi muitos a entregar margem por erros que não tinham nada que ver com o produto nem com o preço. Tinham que ver com nervos, com pressa e com falta de método. Estes são os três que mais caro custam, e que vejo repetir há mais de duas décadas a formar equipas comerciais.

  1. Fazer descontos cedo. Oferecer desconto antes de o cliente o pedir, «para mostrar boa vontade». É o equivalente a entrar num leilão a licitar contra si próprio. Se ainda ninguém pediu desconto, ainda não há razão para o dar.
  2. Fazer descontos para «fechar». Aquele desconto final, em cima da assinatura, «para não perder o negócio». Na maior parte das vezes o negócio já estava fechado na cabeça do cliente — só faltava ver se cedia mais um bocadinho. E cedeu.
  3. Revelar o limite. Dizer ao comprador, em qualquer momento, frases como «mais do que isto é impossível» ou «este é mesmo o meu mínimo». No instante em que revela onde está o seu chão, o comprador sabe exatamente até onde o pode empurrar. O seu limite é informação sua. Guarde-o.

Há um quarto erro mais subtil e talvez o mais caro de todos: levar a negociação a peito. O comprador que o pressiona não está zangado consigo. Está a trabalhar. Quem leva as táticas como ataque pessoal reage com emoção, e a emoção na negociação custa sempre dinheiro. Frieza não é falta de simpatia — é profissionalismo.

Táticas de compras e a resposta do vendedor

Para fechar a parte prática de quem quer negociar com as compras sem ceder, deixo-lhe um quadro com a resposta certa a cada tática. Não é teoria. É o que respondo, na vida real, a cada uma destas situações.

Tática de compras Resposta do vendedor
Âncora baixa («o orçamento é metade»)Não reagir ao número. «Esse valor não cobre o que está em causa. Vamos olhar para o que precisa mesmo.»
«O concorrente é 20% mais barato»«Mais barato no preço ou no custo total a três anos? Façamos a conta.»
Ultimato com prazo apertado«Para lhe dar a melhor resposta preciso de validar internamente. Tem-na até quinta.»
Bom-polícia / mau-polícia«Compreendo que o seu diretor tenha limites. Eu também tenho. Vejamos onde se cruzam.»
O silêncioAguentar o silêncio. Quem o quebra primeiro, cede. Espere.
Bolo às fatias (pedidos sucessivos)«Posso incluir isso. Se incluir, então preciso de rever o volume ou o prazo.»
Pedido de última hora«Esse ponto já tínhamos fechado. Se o reabrimos, reabrimos tudo.»

Repare no fio condutor de todas as respostas: nenhuma é um «não» seco, e nenhuma é uma cedência. Todas devolvem a bola com uma condição. É assim que se negoceia de igual para igual com quem negoceia para viver.

Quer ter este método sempre à mão? Descarregue o nosso Manual de Técnicas de Negociação — um guia prático para preparar cada uma destas situações antes de se sentar à mesa.

Negociar com as compras é defender margem com método

No meu entender, o comercial que aprende a negociar com as compras de igual para igual descobre uma coisa contraintuitiva: o comprador profissional respeita mais quem lhe resiste com método do que quem lhe cede com simpatia. Quem cede depressa é arquivado como fornecedor de segunda, daqueles a quem se volta sempre para conseguir mais. Quem troca em vez de ceder, quem traz valor em vez de preço, quem aguenta um silêncio sem desabar — esse fica na memória como um igual.

Defender a margem não é ser duro nem ser antipático. É ser profissional do mesmo modo que o comprador é. É chegar preparado, conhecer o seu BATNA, mapear a ZOPA, decidir o limite a frio e nunca, mas nunca, dar sem receber. Faça isto durante um ano e veja o que acontece à sua margem média. Eu já sei o que vai acontecer.


E agora?

▶ PRÓXIMO PASSO

Se quer treinar a sua equipa para negociar com as compras sem entregar margem — táticas, preparação de BATNA e ZOPA, defesa de valor e role-play com compradores a sério —, a Ideias e Desafios trabalha estas competências com equipas comerciais em todo o país.


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