13 pessoas, em média, participam numa decisão de compra dentro da empresa cliente, e 89% das compras envolvem dois ou mais departamentos. Os números vêm do comunicado com que a consultora Forrester apresentou, em dezembro de 2024, o relatório «The State of Business Buying». O mesmo comunicado traz outro número que convém ter presente: 86% das compras entre empresas ficam paradas a dada altura do processo.
A este grupo chama-se comité de decisão: as pessoas de uma empresa que, em conjunto, decidem uma compra. Costuma incluir o departamento de compras, quem vai usar o que se compra, quem paga (o financeiro), quem decide em última instância (a direção) e, com frequência, quem trata da informática ou do jurídico. Raramente se sentam todos à mesma mesa com o comercial, e é aí que começa o problema.
O erro que mais vejo nas negociações com um comité de decisão é tratar o grupo como se fosse uma pessoa: uma proposta, um argumento, um interlocutor. O comercial negoceia bem com quem tem à frente, sai da reunião convencido, e semanas depois recebe um «decidimos não avançar para já». Quem travou o negócio nunca esteve na sala nem ouviu o argumento: viu um PDF reencaminhado.
Quem decide, quem influencia, quem paga e quem usa
Antes de negociar com um comité de decisão, convém saber quem faz parte dele. Quatro perguntas chegam: quem assina, quem influencia quem assina, quem paga a fatura e quem vai viver com a solução todos os dias. A mesma pessoa pode ocupar dois lugares, e há lugares que ficam vazios até ao fim.
Ao lado de cada nome que sair destas perguntas, escreva o que a pessoa ganha e o que perde com a compra, e também com a mudança de fornecedor, que é uma coisa diferente. A compra resolve um problema, mas a mudança dá trabalho a quem tem de desmontar o que existe, formar pessoas e explicar à direção porque é que o fornecedor anterior já não serve. Há pessoas no comité que gostam da solução e, mesmo assim, não a querem, porque a mudança lhes cai em cima.
Um mapa de um comité com cinco pessoas pode ser tão simples como isto:
- Diretor-geral: decide. Quer saber se o investimento se paga e em quanto tempo, e não quer surpresas daqui a seis meses.
- Diretor financeiro: paga e pode travar. Quer previsibilidade: valor fechado, condições de pagamento claras e nada que apareça mais tarde na fatura.
- Responsável de compras: conduz o processo. Quer propostas comparáveis, um preço que possa apresentar como conquista e um fornecedor que não lhe dê problemas.
- Chefe da equipa que vai usar a solução: influencia mais do que parece. Quer que funcione no primeiro mês e que a equipa aceite a mudança.
- Responsável de informática: pode dizer que não. Quer saber em que é que a solução obriga a mexer e quem o vai fazer.
São cinco pessoas com preocupações diferentes, e a proposta que responde a uma pode falhar nas outras quatro.
A negociação que o comité de decisão faz sem o comercial
Lembre-se de que o comité tem de chegar a acordo internamente antes de chegar a acordo com o fornecedor. O financeiro quer previsibilidade e quem usa quer que a solução funcione. As compras querem propostas que possam comparar, e a direção quer saber se o investimento se paga. Enquanto não se entenderem, não há nada para negociar, por muito boa que a proposta seja.
É assim que leio os 86% de compras paradas da Forrester: boa parte dessas paragens acontece na negociação que o comité tem internamente. A que faz com o fornecedor é só a parte visível, e a decisiva acontece em reuniões internas, em conversas de corredor e em trocas de emails em que o comercial não está.
Isto muda a preparação: em vez do melhor argumento para a reunião, preparam-se os argumentos de que o interlocutor vai precisar quando estiver sozinho à frente do financeiro ou da direção. Se o interlocutor sair convencido, mas sem saber explicar porquê, o negócio perde-se na reunião seguinte, aquela em que o comercial não vai estar.
O aliado que faz a compra andar
Numa empresa que compra, costuma haver uma pessoa que quer mesmo que a compra aconteça, porque o problema é dela ou porque a mudança a favorece. Encontrá-la e apoiá-la é boa parte do trabalho numa negociação com um comité de decisão.
No livro «The Challenger Customer» (Penguin, 2015), Brent Adamson e os coautores chamam «mobilizer», o mobilizador, a quem faz avançar a compra dentro da empresa. Segundo a apresentação da editora, o livro assenta em investigação da CEB (Corporate Executive Board) junto de milhares de comerciais, profissionais de marketing e compradores de empresas. A conclusão contraria o instinto: as equipas comerciais com melhores resultados não se concentram nos clientes simpáticos e atentos. Procuram os céticos, pouco interessados em reuniões, que têm capacidade de persuasão. São estes que se dispõem a desafiar a própria organização a favor do fornecedor e a levar o negócio até ao fim.
Por incrível que pareça, o aliado certo raramente é o interlocutor mais agradável. O interlocutor simpático recebe bem o comercial, concorda com tudo e tem pouco crédito junto dos colegas para fazer a compra andar. O aliado útil faz perguntas difíceis, discorda à frente dos outros e, quando se convence, leva o assunto às reuniões internas sem precisar do comercial. Procure quem tem interesse em mudar e peso na empresa: a simpatia é um bónus. Cada pessoa do comité decide à sua maneira, e o artigo sobre os estilos de decisão do cliente descreve as quatro maneiras mais comuns.
Uma negociação com várias frentes
Com várias pessoas de lados diferentes, a negociação com o comité de decisão deixa de ter uma frente e passa a ter quatro ou cinco. O que se cede às compras não é o que se cede a quem usa: às compras interessa um ponto de desconto, a quem usa uma semana de acompanhamento no arranque, ao financeiro o pagamento repartido e à direção uma garantia escrita.
Daí a regra: cada cedência tem de ser visível para quem a valoriza. De pouco serve oferecer a semana de acompanhamento ao responsável de compras, que a vai registar como um extra e continuar a pedir desconto. O acompanhamento apresenta-se ao chefe da equipa que vai usar a solução, a condição de pagamento ao financeiro, e o desconto, se existir, às compras, que precisam de o mostrar como uma vitória. Preparar uma negociação assim é saber, em cada frente, até onde se pode ir, e o simulador de ZOPA mostra esses limites antes da reunião. Cada uma destas pessoas compra por uma razão própria, e o artigo sobre os motivos de compra explica como a descobrir antes de decidir o que ceder.
A reunião com o grupo inteiro
Mais tarde ou mais cedo, acontece a reunião com o comité de decisão inteiro. É a melhor oportunidade da negociação e a mais fácil de estragar, porque o comercial fala para a sala, e a sala não é uma pessoa.
Algumas regras práticas que uso e ensino:
- Do lado do fornecedor, fala uma pessoa. Se forem duas, combinam antes quem responde a quê, porque duas vozes na mesma resposta soam a desacordo.
- Responde-se a quem perguntou e fala-se para quem decide. A pergunta técnica merece a resposta técnica, curta, e depois a frase para a sala: «Para a direção, o que isto significa é que a equipa trabalha sem paragens a partir do segundo mês.»
- Quando alguém contesta o preço à frente dos colegas, a primeira resposta não é defendê-lo. Pergunta-se primeiro: «Percebo. Para vos ajudar a comparar, o que é que a outra proposta inclui por esse valor?» Quem contestou está a falar para os colegas, e a resposta tem de lhes dar uma razão para não concordarem com essa pessoa à primeira.
- O mais ruidoso não decide pelos outros. Quando uma pessoa ocupa a reunião, dá-se a palavra a quem ainda não falou, com uma pergunta concreta: «Da parte de quem vai usar a solução, o que é que fica por responder?» O que os outros não disserem agora vai ser dito na reunião interna, sem o comercial, e mais vale ouvi-lo já.
Quando um decisor nunca aparece
Às vezes o mapa do comité de decisão tem um nome que nunca aparece: o diretor financeiro que «não precisa de estar», a direção que «decide com base no parecer da equipa». Eu sei que é tentador aceitar e seguir em frente. É também a forma mais segura de perder o negócio longe da mesa.
Primeiro, pede-se a reunião, sem drama e com uma razão que sirva ao outro lado: «Antes de fecharmos a proposta, gostava de ouvir o Dr. X diretamente sobre as condições de pagamento, para não lhe levar uma versão que depois tenha de ser refeita.» Muitas vezes, a resposta é um sim. E um não também é informação: diz que o interlocutor tem menos peso do que parecia, ou que a decisão já está tomada noutro sítio.
Se a reunião não acontecer, o trabalho passa a ser preparar o aliado interno para defender a proposta sozinho. Uma página, e não vinte: o problema em duas linhas, a solução, o que custa, o que poupa, as perguntas que o financeiro vai fazer e as respostas. Quem a vai defender precisa de a saber explicar no tempo de beber um café. Facilitar a compra do lado de dentro é o tema do artigo sobre o processo de compra.
Num comité de decisão, as pessoas têm de se convencer umas às outras, e o papel do comercial é dar-lhes razões para o fazerem. Será que a sua última proposta perdida foi recusada, ou nunca chegou a ser discutida a sério por quem decidia?
