Numa negociação há dois números que ninguém diz em voz alta: o mínimo que o comercial aceita e o máximo que o cliente está disposto a pagar. O preço que se pede e o preço que se oferece andam à volta deles.
Se o mínimo do comercial está abaixo do máximo do cliente, há negócio possível. Se não está, pode haver reuniões, propostas revistas e muita simpatia, mas não há acordo nenhum à espera no fim. Ao espaço entre esses dois números chama-se ZOPA, a zona de acordo possível, e é lá dentro que o negócio vive. Fora dela, morre, por muito bem que a reunião corra.
O conceito não é novo nem é meu. É das primeiras coisas que se ensinam em negociação, e o Program on Negotiation da Harvard Law School explica-o com um exemplo de salários: se um candidato aceita entre 70 000 e 80 000 dólares por ano e a empresa está disposta a pagar entre 65 000 e 75 000, a ZOPA vai dos 70 000 aos 75 000. O que me interessa é o lado prático: como se estima a zona antes de entrar na sala, onde é que o negócio morre e como se alarga sem baixar o preço.
A ZOPA explicada com quatro números
Pense comigo numa proposta concreta. Os valores são inventados, mas a mecânica é real.
Do seu lado há dois números: o preço-alvo, onde gostaria de fechar se tudo correr bem, que aqui são 48 000 €, e o ponto de reserva, o mínimo abaixo do qual o negócio deixa de lhe interessar, que são 41 000 €. Do lado do cliente há outros dois: o teto, o máximo que ele paga antes de ir procurar outra solução, digamos 45 000 €, e o número com que ele vai abrir e que gostava que fosse o fecho, 38 000 €.
A ZOPA desta negociação vai do seu ponto de reserva ao teto do cliente, dos 41 000 aos 45 000 €. São 4 000 € de largura, e tudo o que se vai discutir nas próximas reuniões resume-se a saber quanto desses 4 000 € fica de cada lado.
Isto diz muito sobre o resto da conversa. O seu alvo de 48 000 € está fora da zona: não é um erro, porque pode ser o número com que abre, mas convém saber que dificilmente se fecha lá. E os 38 000 € do cliente também estão fora, abaixo do seu mínimo. Nenhum dos dois números de abertura é o fecho. O fecho vai sair do intervalo entre os dois, e tende a ficar mais perto de quem o conhece melhor.
O ponto de reserva decide-se antes da reunião
O ponto de reserva é a ponta da ZOPA que depende só de si, e é o número que mais vezes fica por decidir. Muitos comerciais sabem o preço de tabela e sabem o desconto máximo que a direção deixa dar, mas não sabem a partir de que valor o negócio deixa de valer a pena para a empresa. São duas coisas diferentes. O desconto máximo é uma regra interna, e o ponto de reserva é uma conta: o custo de servir aquele cliente, a margem mínima que justifica o esforço e, sobretudo, a alternativa que tem se este negócio não se fizer.
Essa alternativa tem nome: é o BATNA, a melhor alternativa a um acordo negociado, e escrevi sobre ele com mais detalhe em negociação B2B sem plano B. A ligação entre os dois é direta: quanto melhor for o seu BATNA, mais alto pode estar o seu ponto de reserva, porque tem para onde ir se o cliente não chegar lá.
O problema de deixar o ponto de reserva para a reunião é que ele passa a ser definido pelo primeiro número que o cliente coloca na mesa. É o efeito de âncora, de que falo no artigo sobre quem faz a primeira proposta: um número dito com convicção puxa todos os outros para perto dele. Se o seu mínimo não está escrito em lado nenhum, o mínimo passa a ser «um pouco acima do que ele disse», e aí já houve uma cedência.
Como estimar o teto do cliente sem uma bola de cristal
O teto do cliente é a outra ponta da ZOPA e a mais difícil de estimar, ao ponto de muitos comerciais a dispensarem com um «não faço ideia». Ao certo, não se sabe. Mas também não se parte do zero, porque o cliente deixa pistas, e muitas delas aparecem a quem pergunta.
As pistas que costumo procurar são estas:
- O orçamento aprovado. Muitos clientes têm um valor autorizado para aquela compra. Nem sempre o dizem, mas muitas vezes respondem a «Já há um valor previsto para este projeto?».
- As alternativas dele. O teto do cliente depende do BATNA dele: o que lhe custa fazer com outro fornecedor, fazer internamente ou não fazer nada. Quanto mais cara for a alternativa, mais alto está o teto.
- O que pagou da última vez. Um contrato anterior, um fornecedor que está a substituir, um preço que ele cita de passagem. É o número mais fiável que vai ter.
- O custo de continuar como está. Se o problema que a sua proposta resolve custa ao cliente 20 000 € por ano, o teto dele não está nos 5 000 €, diga ele o que disser.
- A pressa. Um prazo apertado do lado do cliente sobe o teto, porque reduz as alternativas. O contrário também é verdade.
Nas primeiras vezes, a estimativa vai sair errada, e não faz mal. Serve na mesma, porque cada reunião traz informação nova e a estimativa corrige-se. Uma estimativa errada que se corrige vale muito mais do que nenhuma estimativa.
Onde o negócio morre: quando a zona não existe
Há negociações em que o seu mínimo está acima do teto do cliente. Imagine que o seu mínimo é 41 000 € e o cliente, por muito que queira, não passa dos 38 500 €. Aqui não há ZOPA. Há uma diferença de 2 500 € que nenhuma técnica de fecho resolve, porque não há nenhum preço que sirva aos dois.
Nesta situação, vejo acontecer duas coisas, e as duas saem caras. A primeira é o comercial ir abaixo do ponto de reserva «porque já investimos tanto tempo neste cliente». O tempo gasto já não volta, faça-se ou não o negócio, e fechar abaixo do mínimo só junta um prejuízo ao tempo perdido. A segunda é arrastar a negociação durante meses, à espera de que o cliente mude de ideias, sem mudar nada do lado da proposta. Empurra-se o assunto com a barriga, e a zona continua a não existir.
Quando a zona não existe, sobram três caminhos. Mudar o negócio: menos âmbito, outro prazo, outro volume, até o custo de servir ficar abaixo do que o cliente pode pagar. Mudar a perceção de valor: mostrar ao cliente um custo de ficar como está com que ele não contava, e que sobe o teto dele. Ou levantar-se da mesa com elegância e deixar a porta aberta. O terceiro caminho custa, mas às vezes é o único com margem.
Dentro da zona também se perde
Por incrível que pareça, muitos negócios fecham dentro da zona e, mesmo assim, fecham mal. A razão é menos óbvia: cada lado assume que o outro quer o contrário em tudo, e trata cada ponto da negociação como se tudo o que um ganha saísse do bolso do outro.
Em 1996, Leigh Thompson e Dennis Hrebec reviram 32 experiências sobre aquilo a que chamaram acordos «perde-perde»: as duas partes tinham interesses compatíveis, muitas vezes não davam por isso e fechavam um acordo pior para ambas do que outra solução que estava ali disponível. Numa venda, acontece, por exemplo, quando o comercial trata um prazo de entrega mais longo como uma concessão que tem de pagar, sem perceber que o cliente também não tem pressa nenhuma e aceitaria esse prazo sem pedir nada em troca.
Há ainda uma forma mais silenciosa de perder dinheiro dentro da zona: aceitar depressa demais. Se o cliente propõe 42 000 € e o comercial diz logo que sim, fechou dentro da ZOPA, é verdade, mas abdicou de até 3 000 €, a diferença entre os 42 000 e o teto de 45 000 €. E o cliente, que esperava uma contraproposta, fica com a sensação de que podia ter oferecido menos. Aceitar à primeira raramente deixa alguém satisfeito, nem sequer quem ouve a resposta.
Alargar a zona sem baixar o preço
A largura da ZOPA não é fixa. Muda cada vez que entra na conversa uma variável que não é o preço: o prazo de pagamento, o prazo de entrega, o volume, a formação de arranque, a exclusividade numa região, um testemunho do cliente para usar em propostas futuras.
O critério para escolher estas variáveis é simples de dizer e dá trabalho a aplicar: o que lhe custa pouco a si e vale muito para o outro lado. Um cliente com a tesouraria apertada pode valorizar mais 30 dias de prazo de pagamento do que um desconto de 2%, e para a sua empresa esses 30 dias podem custar bastante menos do que esse desconto. Trocar um pelo outro sobe o teto do cliente sem baixar o preço. E às vezes é assim que uma negociação sem zona passa a ter uma.
Com a ZOPA à frente, a ordem da negociação também muda: primeiro estima-se a zona, depois escolhe-se o que se concede para a alargar, e só no fim se discute onde fica o preço dentro dela.
A ZOPA antes da próxima reunião
Calcular a ZOPA não pede uma folha de cálculo complicada, pede algum tempo antes da reunião e alguma honestidade consigo próprio:
- Escreva o seu preço-alvo e o seu ponto de reserva, com a conta que justifica cada um.
- Estime o teto do cliente com as pistas que tem, e anote de onde vem cada uma.
- Estime o número com que ele vai abrir.
- Veja se há zona. Se não houver, decida antes da reunião qual dos três caminhos vai seguir.
- Escolha duas variáveis que não sejam o preço e que possa trocar para alargar a zona.
Depois da reunião, corrija os números com o que ouviu. Dá trabalho, mas é assim que a estimativa deixa de ser um palpite e, à terceira ou quarta negociação com o mesmo cliente, já tem uma ideia muito aproximada do teto dele.
