Pegue nas notas das cinco reuniões mais recentes que fez com clientes novos e tape o nome das empresas. Consegue dizer qual é qual?
Na maior parte das equipas que acompanho, a resposta é não. A primeira reunião com o cliente sai sempre parecida porque as perguntas são sempre as mesmas: quais é que são os vossos objetivos, quais é que são os vossos maiores desafios, como é que está organizada a equipa, que ferramentas é que usam. E o comercial sai de lá com a folha cheia de notas e de mãos a abanar.
Este guião existe por uma razão simples: é confortável. Serve para todos os clientes porque não incomoda nenhum. E o que não incomoda ninguém também não vende nada.
O encadeamento é sempre o mesmo. Uma pergunta genérica só pode devolver uma resposta genérica: «Quais é que são os vossos maiores desafios este ano?» dá sempre uma de três respostas, que são crescer, cortar custos ou ganhar eficiência. Com informação assim, a proposta sai igualmente vaga, e o cliente fica sem nada por onde a comparar a não ser o preço. E depois queixamo-nos de que o mercado só olha ao preço, quando fomos nós que lhe ensinámos a olhar só para ali. Escrevi sobre isto no guia das objeções de preço.
A diferença entre uma reunião que rende e uma que não rende raramente está no fecho. Está meia hora antes, na qualidade do que se perguntou.
O problema não é o número de perguntas
O primeiro instinto de quem percebe isto costuma ser fazer uma lista maior, com cinquenta perguntas em vez de dez, mas não é por aí.
A Gong analisou mais de 519 mil chamadas comerciais e viu que as primeiras reuniões com melhor desfecho ficam por onze a catorze perguntas bem dirigidas. A partir daí, a taxa de sucesso volta à média. Ou seja, há espaço para perguntar bastante, desde que as perguntas trabalhem.
E é aí que quase todos falham. Não por perguntar pouco, mas por gastar essas perguntas em coisas que se perguntam a todos os clientes. A essas, o cliente responde-lhe o mesmo que já respondeu à concorrência.
As perguntas que servem apenas aquele cliente
Bastam três ou quatro perguntas dessas para mudar o ambiente da reunião. São as que só fazem sentido naquele negócio, e que provam, sem o dizer, que já esteve ali antes.
E aqui está a parte boa: estas perguntas não se inventam. Já existem, e estão na cabeça dos clientes que já tem.
Escolha o tipo de cliente que lhe dá mais faturação. Um só, para começar. Telefone a dois ou três clientes antigos desse tipo, daqueles com quem já tem confiança, e pergunte-lhes isto:
- O que é que a administração vos mede ao fim do mês?
- Quando é que se fecham os orçamentos e quais é que são os meses mortos do vosso ano?
- Quem é que tem de dizer que sim numa decisão destas, e quem é que a pode travar?
- O que é que os meus concorrentes vos dizem sempre e já vos cansa ouvir?
São conversas curtas, e raramente alguém se recusa a tê-las. As pessoas gostam de falar do seu trabalho a quem pergunta a sério.
O que sai daí vale mais do que uma semana de estudos de mercado. Fica a saber por que número é que aquela casa vive, quando é que há dinheiro decidido e quando é que não há, quem assina e quem trava, e que conversa é que eles já ouviram mil vezes. Esta última costuma ser exatamente a que tinha preparado para a próxima reunião.
Guarde as respostas nas palavras deles. Não as traduza para o seu vocabulário, que a linguagem é a primeira coisa a denunciar quem está de fora.
E quando não conhece o negócio?
Acontece, e mais vezes do que se admite. Chega-se a um tipo de cliente novo sem histórico nenhum a que ir buscar as perguntas.
A tentação é fingir que se percebe. Não finja. Não há nada que se note mais depressa do que um comercial a usar vocabulário emprestado, e o cliente dá por isso quase de imediato.
Nesse caso, a honestidade é a melhor arma. Diga ao cliente que prefere perceber primeiro o negócio dele antes de falar do seu, e pergunte com simplicidade:
«No vosso dia a dia, o que é que vos dá mais dores de cabeça?»
E quando ele responder, peça um exemplo: «Conte-me a última vez que isso aconteceu.» As pessoas contam episódios concretos com um detalhe que nunca dão quando a conversa fica no abstrato, e é nesse detalhe que está a matéria-prima da proposta.
A primeira reunião com o cliente é para perceber, não para mostrar
Um aviso sobre o tempo, porque é aqui que os bons guiões morrem. Se tem meia hora de reunião e quer também apresentar a empresa, o catálogo e a solução, não vai perguntar nada de jeito.
Escolha. Vale mais sair da primeira visita sem ter mostrado nada e com o problema percebido, do que ter mostrado tudo e não ter percebido nada. A apresentação pode sempre ir na segunda reunião, e vai mais bem feita, porque já sabe o que interessa àquele cliente.
E se ele pedir para ver alguma coisa ali mesmo, mostre, mas pouco e ligado ao que acabou de ouvir. Uma página que responde ao episódio que o cliente contou vale mais do que vinte diapositivos sobre a história da empresa e os prémios que ela ganhou.
Depois de perguntar, cale-se
De pouco vale preparar boas perguntas se não se deixa o outro responder.
É a falha mais comum que vejo: pergunta-se bem e atropela-se a resposta quase de imediato, por medo do silêncio. Conte até três depois de o cliente parecer que terminou. Na maioria das vezes ele ainda não terminou. Deu a parte segura da resposta e ia agora começar a parte útil.
Ao falar por cima do cliente não se ouve nada, e depois estranhamos que a informação boa nunca apareça.
A pergunta que quase ninguém faz
Falta a pergunta que costuma decidir o negócio:
«Se ficar tudo como está durante mais um ano, o que é que acontece?»
É desconfortável, e por isso quase ninguém a faz. Mas sem ela pode acontecer o pior desfecho de todos, que é o cliente concordar com tudo o que ouviu e não fazer nada. Nesse dia não perdeu o negócio para ninguém, e mesmo assim ficou sem ele.
Lembre-se de que o seu maior concorrente raramente é a empresa do lado: é a hipótese de o cliente ficar exatamente como está.
O teste do carro
Há uma forma rápida de saber se a reunião serviu de alguma coisa. No carro, antes de arrancar, tente escrever duas frases:
- O que muda na empresa dele, em números que ele reconheça, se isto correr bem.
- Quem, com nome e função, tem de dizer que sim.
Se não conseguir escrever as duas, o que houve não foi uma reunião de trabalho, foi uma apresentação com pausas para perguntas.
E não vale voltar ao cliente uma semana depois para «esclarecer alguns pontos». Uma vez passa. À segunda, ele percebe que a primeira reunião foi tempo dele deitado fora.
Por onde começar
Escolha um tipo de cliente e faça esta semana os dois ou três telefonemas aos clientes antigos. Depois escreva, a partir do que ouviu, as três ou quatro perguntas que servem apenas aquele negócio, e leve-as na pasta para a próxima primeira visita.
O efeito nota-se ainda no princípio da conversa. É quando o cliente se recosta na cadeira e diz a frase que paga o trabalho todo: «Vejo que já trabalhou com empresas como a nossa.»
E agora?
E na próxima primeira reunião, quando lhe vier à boca o «quais é que são os vossos maiores desafios?», lembre-se: essa pergunta o cliente já a ouviu esta semana. Faça a que ele ainda não ouviu.
