A reunião mais importante que um gestor comercial tem com a sua equipa é, quase sempre, a que menos vezes acontece. Não é a de pipeline, com toda a gente à volta da mesa a olhar para os números. É a outra: a conversa a sós com cada vendedor, sobre ele e não sobre a carteira.
As reuniões individuais, ou 1:1, são o ritmo de gestão que separa as equipas que crescem das que andam à deriva. E a maioria dos gestores anda meses sem as marcar, sempre com a mesma desculpa: «não tenho tempo». É disso que falamos hoje.
As reuniões individuais não são reuniões de pipeline
Vamos começar por desfazer a confusão mais comum, porque é a mãe de quase todos os erros.
A reunião de pipeline serve para olhar para os números. Que negócios estão abertos, em que fase, com que probabilidade e quando é que isto fecha. É uma reunião sobre o trabalho. Necessária, importante e normalmente coletiva, com toda a equipa à volta da mesa a olhar para o mesmo painel.
As reuniões 1:1 são outra coisa. São reuniões sobre a pessoa que faz o trabalho. Não é um interrogatório de números, é uma conversa de desenvolvimento. Onde é que ele está a tropeçar? Que obstáculo posso eu remover? O que é que ele precisa de aprender para dar o salto seguinte? O que o tira do sério?
Quando se misturam as duas, perde-se a reunião 1:1. E perde-se sempre da mesma maneira: a conversa cai nos números, o comercial põe-se na defensiva e aquilo que devia ser coaching transforma-se num ponto de situação falado. O comercial sai dali a sentir-se fiscalizado, não acompanhado. E na semana seguinte já anda a rezar para que a reunião seja cancelada.
Porque é que o ritmo importa (e o que dizem os números)
Eu sei o que está a pensar. «José, eu não tenho tempo para isto. Tenho seis comerciais, tenho clientes, tenho a direção em cima.»
Compreendo. Mas deixe-me pôr-lhe um dado em cima da mesa.
A Gallup, que estuda envolvimento de equipas há décadas, concluiu que o gestor direto explica cerca de 70% da variância no envolvimento da equipa. Setenta por cento. Não é a empresa, não é a marca, não é o plano de comissões. É o chefe direto do comercial. (Fonte: Gallup.)
Ora pense comigo. Se 70% do envolvimento de um comercial passa pela relação que ele tem com o chefe, qual é o veículo dessa relação? É a conversa regular. É o tempo a sós. É a reunião 1:1. Não há outro sítio onde essa relação se construa a sério.
O ritmo é o que faz a diferença. É por isto que as reuniões 1:1 funcionam: uma conversa profunda de duas horas, uma vez por ano, na avaliação de desempenho, não vale nada ao pé de trinta minutos de qualidade, todas as semanas. A confiança não se constrói num evento, constrói-se numa cadência.
A estrutura de uma boa reunião 1:1
Pegue numa folha de papel, que isto vale a pena anotar. Uma boa reunião 1:1 não é uma conversa à toa nem um interrogatório. Tem espinha dorsal. No meu entender, divide-se em três blocos.
Primeiro bloco: a pessoa. Começa por ele, não pelos números. «Como é que está a correr a semana? O que te anda a tirar o sono?» Parece conversa de circunstância, mas não é. É aqui que descobre o comercial desmotivado antes de ele se despedir, ou o que está a sofrer com um cliente impossível antes de o negócio rebentar. Cale-se e oiça. Quem fala demais nesta fase perde a informação toda.
Segundo bloco: os obstáculos. «O que é que te está a impedir de fechar o que tens em mãos? O que precisas de mim?» Este é o bloco que justifica o cargo de chefe. O seu trabalho não é vender por ele, é tirar-lhe as pedras do caminho. Um preço que precisa de aprovação, uma área técnica que não responde, uma proposta que está há duas semanas à espera de resposta. Aqui o gestor deixa de ser um fiscal e passa a ser um desbloqueador.
Terceiro bloco: o desenvolvimento. Uma coisa, só uma, para ele trabalhar até à próxima. Não dez. Uma. «Esta semana quero que treines a abertura da reunião antes de entrares no preço.» Foco. O líder comercial é, antes de tudo, um alfaiate: não há um fato que sirva a todos. Cada comercial precisa do seu corte.
A cadência: semanal ou quinzenal, mas sagrada
Qual é o ritmo certo? Depende.
Comercial júnior, ou alguém a passar por um momento difícil: semanal. Precisa de acompanhamento de perto, de correção rápida, de não deixar o erro ganhar raízes. Comercial sénior, experiente, com a rota traçada: quinzenal chega e sobra. Tratá-lo com luvas é desrespeitar a maturidade dele.
Mas atenção e este é o ponto que mais custa a interiorizar: o que mata a reunião 1:1 não é a frequência. É a falta de respeito pelo compromisso.
Conheço o filme de cor. Marca-se a reunião 1:1 para sexta às 15h. Chega a sexta, aparece um cliente e o chefe cancela. «Fica para a próxima.» Na semana seguinte, outro fogo, outro cancelamento. Ao fim de um mês, o comercial já percebeu a mensagem que ninguém disse em voz alta: «tu não és prioridade.» E quando ela é finalmente realizada, o comercial já lá não está de corpo inteiro.
A reunião 1:1 que se cancela sempre é pior do que a que nunca existiu. Porque a primeira promete e desmente. E aqui não há meio-termo: a reunião individual marcada cumpre-se. Se tiver mesmo de a remarcar, remarca-se para outra hora na mesma semana, não se apaga.
Os erros que esvaziam a reunião por dentro
Já vimos o pior: reduzir a reunião 1:1 a um desfile de números e cancelá-la sempre. Mas há erros mais subtis, que não chegam a cancelar a reunião, apenas a esvaziam por dentro.
O chefe que fala sozinho. Entra, despeja vinte minutos de instruções e sai convencido de que «correu bem a reunião». Correu bem para ele. O comercial não disse uma frase. Isto não é uma reunião 1:1, é um monólogo com plateia de um.
O ponto de situação falado. «Então, como vão os negócios?» E lá vai meia hora a percorrer a lista de oportunidades, uma a uma. Isso já está no CRM. Para isso não era preciso ninguém. A reunião 1:1 serve para falar do que o CRM não mostra: o que vai na cabeça do comercial.
O sem seguimento. Esta é traiçoeira. A reunião até corre bem, fala-se de tudo, combinam-se coisas… e na seguinte ninguém se lembra do que ficou combinado. Sem registo, a reunião 1:1 é entretenimento. Com registo e seguimento, é gestão.
E é por isto que o último ponto é o mais importante de todos.
Registar e dar seguimento: onde a reunião 1:1 se torna gestão
Uma reunião sem rasto não aconteceu. Aprendi isto à minha custa.
No fim de cada reunião 1:1, três linhas chegam. O que ficou combinado, quem faz o quê e até quando. Pode ser um email curto com o resumo, um documento partilhado ou um caderno simples. O que interessa é que fique registado, num sítio fácil de ir buscar no início da próxima.
Quando abre a reunião 1:1 seguinte com «da última vez ficaste de fazer X, como correu?», acontece algo importante. O comercial percebe que aquilo que se combina ali tem consequência. Que não é conversa fiada. E a partir daí, prepara-se para a reunião. Começa a trazer assuntos. A reunião 1:1 deixa de ser uma coisa que lhe acontece e passa a ser uma reunião que ele faz sua.
E não é preciso mais do que isto: reuniões 1:1 quinzenais, trinta minutos, dois terços de escuta, uma coisa de cada vez e três linhas de registo no fim. É esse ritmo, mantido, que faz comerciais dados como perdidos voltarem a vender. Não é magia. É ritmo.
Dois desafios para esta semana
Não saia daqui sem fazer isto. Vá lá, experimente.
Desafio 1: o calendário. Pegue na agenda e marque já as próximas quatro reuniões 1:1 com cada comercial, com data e hora. Não «quando der». Agendadas. Se não estão na agenda, não vão acontecer, vão ser sempre a primeira coisa a cair.
Desafio 2: a regra dos dois terços. Na sua próxima reunião individual, faça uma experiência simples: meça quanto tempo passa a falar e quanto tempo passa a ouvir. Se passar de um terço do tempo a falar, morda a língua e devolva a palavra com uma pergunta. Vai custar. Mas é nessa pergunta que está o coaching.
Como deve estar a imaginar, nada disto é complicado. É simples. O difícil é a disciplina de manter o ritmo quando há fogos a arder por todos os lados. Mas é precisamente aí, quando custa, que a reunião 1:1 separa o líder do apontador de encomendas com cargo de chefe.
